anjo

14 11 2011
quando me castrei
bati meus testiculos com água
e açúcar
pensando em rios de leite e mel

bebi tudo numa golada
menstruando e tossindo
com biscoito maria e um paninho
grudento tocando minha virilha

empapado.

depois me socorreram
e cuidaram de mim
e do meu saco.

costuraram.

fui pra casa, andando torto.

quando cortei meu pênis
fui sangrando pra cozinha
e o parti em muitas rodelas

fritei com óleo, alho e sal.

a carne esponjosa eu mastiguei com dificuldade
chorei um pouco alto, insatisfeito com o sabor
mas comi tudo

depois me socorreram
e cuidaram de mim
e do buraco.

costuraram.

fui pra casa, dias depois.

queriam me internar.

reincidência.

manicômio estadual.

lá vou eu todo de branco, qual um anjo:
sem sexo.

foi então, após uns meses,
noutro lapso de loucura
que atinei: eu sou eunuco
e não posso me mutilar de novo
à freud, como afirmava a doutora
em minhas sessões de prescrição de calmantes.

Por isso cortei os pulsos
com a ponta de um grafite
para quem sabe um dia
meu sangue voltasse a terra
e alguem escrevesse com ele
um poema ruim como esse
que foi o da minha vida
minha biografia

mas pra falar a verdade
não estou nem um pouco aí.

porque morrer nem é lá essas coisas
todo mundo faz isso
ninguém liga pra quem morre por muito tempo
enquanto eu, euzinho aqui,
quando passo nas ruas do hospicio
me apontam o dedinho
visitantes, moradores e funcionários:
é aquele ali o tal
aquele louco da faca
aquele que cortou as partes

eu vou ouvindo isso baixinho
sorrindo às borboletas
sentindo o toque dos mosquitos
pensando na próxima jogada.




Do lixo

19 11 2010
O homem foi tocado quase morto. A boca uma pústula, os dedos, tronchos, purulentos sob as unhas. Um troco de si mesmo. Uma ninharia do pouco que fora um dia. 

Envolto nos trapos, camisa rasgada, calças pendiam rabos e caudas de pano. Tentaculos dobrados. Dormitava; o pensamento elipsoidal. A boca em rubro, uma ponta brilhada do bafejar do sol.

Dormitava; pensava ouvir o grovitar dos corvos, mas apenas os urubus caminhavam por perto. De finas chaminés fervia o metano. Por baixo de todo o lixo, brotava o chorume.

O homem foi tocado quase morto. As mãos que o tocaram eram finas, como a vida, que por qualquer meia hora de lição de porrete, voava e esvoava.

O homem sabia disso. A pequena dona das mãos finas coçou o nariz, olhou ao redor e viu Hulk revirar o monte atrás de qualquer coisa mais acima da montanha de entulho. Não falava, a pobre. Subiu com dificuldade, equilibrando a cabeça e o que chamava de tronco nas duas canetas que sustentavam o pouco peso do seu corpo. O short, rosa desbotado, sambando no quadril macérrimo. A blusa, pequena, que esvoaçava no corpo magro.

Puxou o braço de Hulk, que a observou, enxugando o suor da testa.
– Tem hoje não, nem quero.

A mudinha apontava pra baixo da montanha de lixo.

Hulk coçou a barba e ajeitou o boné branco. Ajeitou também o saco de trapo nas costas, ainda não tão cheio de entulho quanto queria.

– Que tem ali?, perguntou.

A mudinha puxava Hulk pelo braço peludo. Desceram desajeitados. Ela sambando, sem aguentar o próprio peso. Ele sambando, os pés escorregando na superfícia de plástico daquela fábrica de chorume.

O dedinho fino apontou o homem. Hulk disse que virgem santíssima e chegou perto pra ver melhor.

O homem ainda ouvia o grovitar dos corvos.

Hulk botou a orelha junto da boca do homem. O soprinho era vago, sem convicção. Mas estava lá. Respirava.

– Que inferno, disse Hulk, coçou o ovo e pôs-se a esbofetear a criatura.

A mudinha ficou olhando, chiando. Cada tapa que Hulk dava na cara do infeliz era um chiadinho, um gemido da pequena mudinha.

– E que danado é isso, disse Hulk, olhando pra ela pra perceber que os gemidos nada mais eram que as toscas risadas daquela desnutrida.

Hulk olhou as mãos, sujas. A boca molenga de coágulos de sangue do homem deixara marquinhas pegajosas na palma da mão esquerda de Hulk.

– Esse nem acorda, disse.

Então levantou a figura nos ombros. A mudinha, sem poder, tentou levantar uma perna do homem, pra ajudar Hulk a carregá-lo. Mas não dava. Decidiu, pois, se pôr a apenas acompanhá-lo até onde estava levando o homem ferido.
O barraco de Hulk era uma peça comum, feita do que se acha no lixo. Um monte de entulho, madeira, lona, vidro, telhas partidas, com o formato do que seria uma casa. Lá dormia Hulk, sozinho. Ou, quando queria, acompanhado de uma de suas esposas. Uma das quais, a mudinha. Aliás, a única que poderia assim se anunciar, afinal uma cadela, uma gata e uma rata branca não poderiam jamais falar isso de si mesmas. Por outro lado, nem a mudinha. O que as quatro tinham em comum, além de não se importarem com a poligamia, é o fato de não se importarem (muito) com os jatos de esperma inesperados que caracterizavam o enunciado matrimônio.
Hulk não era um homem dos mais carinhosos. Quando tinha desejo, costumava passar algo doce (o que é fácil de se encontrar nos sacos de lixo) no próprio pênis, para que uma de suas esposas – menos a rata branca, que era a mais respeitada de todas – o lambesse. Ele ficava lá, deitado, e chamava uma das três. A cadela, que se chamava Cachorra, era a que mais vinha. Em segundo lugar, a pobre mudinha, que, como coisa humana, tinha mais habilidade, apesar de não ter a aspereza do aparelho de Cachorra. Uma, equipamentos, outra técnica.

A gata, que se chamava Gata, lambia pouco. Com ela Hulk gostava de alisar a cabeça, brincar com as tetas, envolver as pernas na palma da mão e passar a ponta do mindinho no sexo dela, o que era muito difícil, diga-se de passagem.
Hulk não penetrava nenhuma de suas esposas, pois possuía um pênis muito grande, que seria praticamente um empalamento para qualquer uma delas. Sabia disso, pois tentara em quase todas, sem obter o sucesso desejado.

Era um infeliz, esse Hulk.

Hulk mascava a língua, carregando nos ombros a tosca figura que parecia morrer em seus braços. Adentrou o barraco e o jogou no chão, perto da pilha de colchões onde dormia e procurou um canequinho plástico e água para dar de beber à figura. A mudinha acocorou-se do lado do moribundo e se pôs a passar a mão pelas feridas do homem jogado. Hulk caminhou até os dois, fez um gesto pra afastar a mudinha, abriu a boca do infeliz e despejou com carinho a água. O homem engasgou e gorfejou. Mostrou as pupilas, dilatadíssimas, às duas figuras ao seu lado e suspirou, revirando-as em duas bolas brancas, irradiadas por vênulas róseas. A boca, ferida, aberta mostrava a língua a se enrolar pra dentro da garganta. Hulk e a mudinha olhavam, estáticos, o espetáculo da morte.

Cachorra entrou no barraco e ficou cheirando o, quem sabe, defunto. Hulk foi ao rosto do homem e encostou a orelha no nariz. Ouvido apurado que tinha, ainda um bafejar tímido saía de lá.

– Saporra não morre, não, sentenciou.

Cachorra ficou lambendo o sangue da boca do infeliz, e as mosquitas começaram a se juntar por cima do moribundo. A mudinha olhava pra Hulk, em silêncio, como se perguntasse o que ele ia fazer agora.

– Deu uma tesão, disse Hulk, e tirou debaixo do último colchão um pote de mel Karo, quase vazio. A mudinha esticou o braço em direção ao pote.

– Não, disse Hulk, espera…

Tirou pra fora o pau enorme, e começou a esfregá-lo até que ficasse brilhante. Era grande de não ficar totalmente duro, só uma ponta para frente, grossa como uma lata de cerveja, longa como uma luneta, a esperar a fome de qualquer uma de suas esposas.

A mudinha abocanhou a piroca de lado, onde tinha a porção mais grossa de mel. Cachorra lambia as unhas do homem jogado no chão. A Gata, só aparecia à noite, dormia em qualquer lugar do lixo. A rata branca, essa não se sabe. Será que existia mesmo.

A mudinha segurava com as duas mãos e lambia a glande, tirando dela o último suco de glicose. Enquanto lambia, voltava a sentir a consistência melosa na língua, nos lábios. Hulk ejaculava. Ela nem percebia a diferença.





Fases do desenvolvimento psico-sexual

18 02 2010

I. Oral

Sentada no sofá, assistindo à TV, segurou com os dentes a pele que restava sobre a parte superior da unha e puxou. Mastigou distraída por uns instantes e ignorou as gotas pequenas e redondas de sangue que minaram do dedo.

Todas suas unhas estavam roídas: muito mais que roídas, na verdade. Seus dedos estavam todos esfolados. Os polegares, em especial, exibiam uma linha avermelhada, macia e brilhante de saliva junto das bases das unhas destruídas.

Os indicadores de ambas as mãos estavam inflamados e duas pequenas bolsas purulentas e doloridas impediam o progresso dela nestes dedos.

Sem unhas ou cutículas para continuar a distrair a boca, enrolou alguns fios do cabelo nos dedos e puxou. A dorzinha dos fios arrancados era um pequeno prazer que ainda lhe dava certa ansiedade até a sua conclusão. Não sabia afirmar se o gozo maior era pela antecipação da dor ou pelo término do ato, quando engolia os fios depois.

Naturalmente tinha que ser cuidadosa. Arrancava um pouquinho dos fios do lado direito da cabeça, depois da outra lateral, da parte de trás e só então da franja. Não queria encher a cabeça de buracos.

Levantou para ir ao banheiro, quando de súbito engasgou. Levou as mãos à garganta e tossiu ruidosamente. Os olhos ainda embaçados pelas lágrimas que o engasgo causou, não conseguiram discernir bem no meio da poça do vômito expelido, o novelo de cabelos, ainda grudado às partículas fermentadas e não digeridas. Havia criado com seu empenho e engenho, um raro (e supostamente mágico), tricobezoar.

 

II. Anal

Dentro do banheiro, de quatro e nu sobre o espelho colocado no chão, o cão olhava maravilhado o reflexo de seu traseiro. Com intenso prazer viu: quando a cauda marrom cresceu clara e escureceu em contato com o ar. E esta fazia uma bela curva, desafiando a gravidade, orgulhosa, lhe enchendo de satisfação.

E esta cauda tinha uma estrutura quase lisa, somente com um calombinho aqui e outro acolá. Pequenas falhas que ele tentava corrigir, mantendo o esforço e a pressão constantes e controlando sua dieta com rigor.

Mas alguém bateu à porta, impaciente. O cão apertou o esfíncter, contrariado, e a linda cauda quebrou-se e caiu sobre o espelho. Levantou-se, colheu o resultado de seu esforço e arte e, com certa pena, jogou-o no vaso e deu descarga. Limpou-se, lavou as mãos, vestiu as roupas e abriu a porta.

O cão tinha que novamente representar seu papel de homem.

 

III. Fálica

Tinha um metro e sessenta e três de altura e nem um centímetro a mais. Claro que disfarçava o quanto podia, usando sapatos com solados bem grossos, que ele escondia com a barra comprida das calças.

Após semanas de deliberação, decidira comprar o maior carro que suas economias lhe permitiram. Passara então a sair pelas ruas, conduzindo o velho e imponente rabo-de-peixe, vestindo alguma camisa escandalosamente colorida e com o peito peludo aberto, coberto de muitos cordões.

Saíra naquela noite, desceu a capota do conversível vintage e acendeu um longo charuto. Fumou, soltando baforadas em forma de círculos elegantes, ignorando os perigos da cidade grande e chamando à atenção dos transeuntes.

Seguiu em direção ao subúrbio e parou em frente à casa de tolerância, como diria sua avó. Ajeitou os genitais volumosos dentro das calças justas e claras e seguiu, gingando exibido, certo de que todos admiravam suas posses.

Adentrou o salão mal iluminado por luzes avermelhadas e piscantes. Sentiu o cheiro de perfume barato, de álcool derramado e escutou as costumeiras modinhas brega-românticas.

A sua garota preferida estava ocupada. Não serviria nenhuma outra? Quem sabe a galeguinha novata? Tão linda, tão jovem. Somente dezoito anos! Como resistir?

Dez minutos depois, saía do quartinho, enfurecido e ainda com o som das gargalhadas da novata ecoando em seus ouvidos. Sentou no banco do carro, rangeu os dentes e espumou um pouco pelos cantos da boca, quando se lembrou dos dedos ágeis da moça, que lhe sacaram com surpresa, as meias enroladas, estrategicamente colocadas, dentro de sua cueca.

 

IV. Latente

Alisou o púbis liso, como de uma boneca. A região era um acúmulo de quelóides e de cicatrizes. Apenas a uretra, ainda que torta, conseguira sobreviver às múltiplas operações.

Nascera homem, era o que constava na certidão de nascimento. Ainda muito criança, apaixonara-se pelo pai e viu a mãe como concorrente. Não deixava que lhe cortassem os cabelos, vestia escondido os vestidos das irmãs, roubava-lhes as bonecas.

Não eram uma família de posses e tampouco tolerantes. Fora forçado a mudar-se para a casa da tia divorciada, ainda adolescente. Fugiria poucos anos depois e sobreviveria de programas nas ruas. Com o apoio das colegas, passara a tomar anticoncepcionais e logo os pequenos seios surgiram. Os cabelos ficaram sedosos, a pele macia e as curvas se acentuaram.

Juntou anos de economias e, com a ajuda de conhecidos, conseguiu operar-se no SUS. O pênis foi dissecado, virado ao avesso para formar um clitóris. A vagina esculpida ao redor de um molde metálico, o escroto amputado.

Fizera muito sucesso como “mulher completa” por algum tempo. Mas logo deixou de ser novidade, viciou-se em coca, tentou se matar.

Uma amiga que conhecera o verdadeiro Jesus levou-a à igreja. O pastor a acolheu e mostrou que ela tinha vivido uma vida de pecado e perdição. “Deus fez Adão e Eva e não Adão e Ivo”- repetia sempre.

Com o apoio da igreja e com os donativos e a influência dos fiéis, operou-se novamente. A vagina foi fechada, os seios retirados, testículos de silicone e uma prótese muito realista de um pênis foram artisticamente implantados. Iniciou o tratamento com testosterona: a voz engrossou, a barba cerrou. Casou-se com uma irmã da igreja, que compreendia seu passado e que gritava aleluias a todo instante.

Meses depois entrou em profunda depressão ao descobrir que não era nada daquilo que queria. Que não suportava a mulher, que vivia se vangloriando da hombridade do esposo e da bondade de Deus.

Divorciou-se, largou a igreja e certo dia, completamente bêbado, tentou operar a si mesmo com uma faca de cozinha.

No hospital os médicos fizeram o possível, mas os tecidos se esgotaram, os músculos e nervos estavam lesionados demais.

Voltou a olhar com tristeza para o nada que tinha entre as pernas. Sem lábios, sem glande, sem útero ou testículos. Como um anjo sem sexo, sem saber quem era ou o que desejava.

Sentou-se no vaso para urinar. Mas com desgosto, apressou-se em levantar e secar a tábua e o chão, que se molharam com a urina que vazara.

 

V. Genital

Dera muita sorte, sem dúvida alguma. Naquele inferninho de periferia, cheio de barangas e gordas, ele a encontrou. Fazia o estilo falsa magra: tinha cintura bem definida, seios pequenos e firmes, pele morena, olhos verdes e cabelos sedosos e compridos. Os olhos estavam caprichosamente delineados com cajal, o que lhe dava um visual exótico, como uma antiga egípcia ou suméria.

Ela não lhe pediu nenhuma bebida cara, não quis saber quem ele era ou o que ele tinha. Convidou-o para ir a seu apartamento. De maneira direta, como quem sabia o que queria.

Chegando lá, portou-se como uma dama: não dizia palavrões, mas também não se fazia de santa. Foram horas de algo tão intenso e apaixonante que, finalmente, ele adormeceu exausto.

Acordou sentindo uma sensação estranha, porém cálida e agradável. Notou que estava firmemente unido ao corpo dela e não conseguia se mover.

Levantou o lençol e não acreditou: ainda estava dentro do corpo da mulher, mas desta vez até a cintura. Suas pernas, seu quadril. Estava impossivelmente dentro do corpo de sua amante.

Ela sorriu, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Apoiou os braços sobre os ombros dele e o empurrou. Ele sentiu que escorregava ainda mais para dentro dela, deslizando através da vagina lubrificada e ampliada.

Tudo parecia um sonho delirante e louco, tinha certeza que acordaria a qualquer momento. Só sentiu uma pontada de desespero quando o pescoço alcançou a entrada e os grandes lábios úmidos lhe tocaram à face.

Ela piscou, beijou a ponta do indicador e fechou-lhe os olhos, nunca menos que gentil e carinhosa. E com um gesto ágil, empurrou-o para dentro da escuridão.

 





Ela & eu

7 02 2010

Dos olhos dela
aquelas duas covas

saíam os mais lindos

vermes cor de ovo
que eu já tinha visto.

A pele
era um papel
que se rasgava

com carinho

plop

e grudava

entre os meus dedos

e aquela coisa preta

nas minhas unhas
era ela

elaeraela

eu tenho a terra
eu tenho a lua
eu tenho o vento
eu tenho o mato
eu tenho silêncio

os muros as estátuas

as covas luxuosas
meu deus

como eu a amo

ela eu amo como
amo a carne dela

Ali na clavícula
as saboneteiras
aquela pele cinza
bem rente aos ossos

o pescoço bem seco
tudo bem seco

a não ser o cheiro
umedecendo minhas narinas
e os meus olhos

ah eu quero a noite
quero todos os buracos
que ela possa me oferecer

os cabelos grossinhos
que lindo

palhinha suja com terra e capim

como ficar num esquife
coisa tal tão linda?

ah que boa a sensação
da pelinha do lábio
se soltando no meu lábio
no meu beijo quase aflito

e o susto que levo
da perninha da barata
escorregando pela minha perna nua
enquanto estou dentro dela

ela que amo
se desfazendo
enquanto a amo

nela
com ela
até o amanhecer.





Areia

8 01 2010

Você não consegue dormir.

É foda, nada pior que os olhos pesados e você não conseguir dormir.

Nada pior que aquela areia nos olhos, as pessoas falando com você e você dizendo aham pra tudo, sono do caralho, sono.

Celular no viva-voz você vem de que horas, eu não sei, to chegando.

Então me dou conta que estou dirigindo e, por Deus, no automático.

Tchau diz a voz, tchau respondo, quem era mesmo?

Então de repente você chega no prédio longo e achatado, é o seu trabalho, que porra. Eu saio do carro e lá está a minha avó, quanto tempo não vejo a minha avó. No meu trabalho, quanto tempo não vejo a minha avó.

Olá meu filho, e eu corro e vou pra sala e tem muito mais computadores lá, onde antes não havia nenhum, então você pensa que está com sono. Mas a sua avó anda pelo corredores daquele jeito lento e muito rápido que você não conhecia, mas por alguma razão está acostumado.

Eu
caí
de novo
de medo
davovó.

Você vê que está caído e acha que o mundo está louco. Finalmente. Deus deve estar batendo punheta.

Então você vê que está na cama, mentira, porra, não está na cama, acha que está na cama.

Eu penso que estou na cama, mas estou noutra cama, e você morre de medo que seja uma cama de hospital. Mas é uma cama de hospital e a sua avó está lá, no colo uma caixa que você sabe que contém algo muito gostoso e que você não pode comer.

Me dá um pedaço, vó?

– Não tente falar, diz uma voz.

Deus voltou, tenho nojo de apertar a mão dele. Sorte que minha boca está inchada.

E você está preso na cama porque tem muitos ossos quebrados.

Essa é a minha noção de pesadelo. Pena que não consigo dormir.

E a vovó vai montar na cama e sentar na sua pica.

E você vai manter uma ereção com isso, então ela abre a caixa e há uma faca
elétrica
que
zumbe
mas
você
não
ouve
direito

E ela enfia na sua boca pra lá e pra cá, não há dor, só lascas de dente, carne e sangue voando por todos os lados

enquanto ela monta e rebola em cima do seu pau.

Com as tetas murchas e moles recebendo jorros de sangue e pedacinhos brancos de dentes.

Chorando, você pede com que ela pare e ela diz não, não para, assim, vai, não para.

Com aquela voz rouca.

Suas pernas não doem, você fecha os olhos e acaba se entregando ao momento.

E ejacula. Muito e grossamente.

Acordei depois disso tudo, caminhões passando. O molhadinho na calça jeans, a consistência estranha.

Uma polução num cochilo na beira da estrada, no acostamento. Essa é a minha noção de pesadelo.

Pena que não consigo dormir.

Explica essa porra toda, Freud!





Do coração

13 12 2009

I


A imbecilidade tem a vantagem de ser o bálsamo da felicidade de quem a tem. Não lembro onde ouvi algo parecido, mas mesmo que eu fosse um completo idiota não me sentia feliz até encontrar Renata. Estava numa festa – que singelo – observando o movimento. E se aquilo que eu senti assim que a vi fosse amor, deve ser por isso que ele é tão cantado, entoado, homenageado. Chama queimando por dentro, e não era azia. Que arde sem se ver. Travamos conversa assim que fomos apresentados. Na mesma noite, fomos para a cama. E estávamos perdidos um no outro, aquela coisa leve que se faz na pele dos amantes. E dane-se Flaubert e sua petite mort. Estávamos mais do que vivos.

Não demorou, meteu-se em minha casa. Esquecemos tudo, estávamos entre nós, e isso era tudo e temo que sempre seja. Temo, pois um sentimento assim não deveria ser sentido. Deveria ser apenas ficcional, estava acima das minhas convicções de inveterado niilista. Uma coisa assim só era possível nos corações das donas-de-casa, com tesão reprimido, ao ver algum galã declarando-se à mocinha, rejeitando a vilã lindíssima por amor, quando eu achava que homem que é homem não rejeitaria uma pulada de cerca com mulheres como aquelas. Com Renata, descobri que estava errado. Eu só a queria e ela a mim. Era o paraíso. Até ela, digamos, me revelar suas preferências.

Na cama, dormitava:

– Amor, quero te confessar uma coisa.

Abro os olhos calmamente, sentindo os lençóis úmidos. Olho para ela, que está com o rosto para cima, observando o teto.

– Hum… Como assim?…

– Bem…, é complicado…

– Sou todo ouvidos, eu disse, me voltando para ela.

– Há uma coisa. Sinto que falta alguma coisa, não é nada com você, você é muito bom de cama, mas é uma coisa que eu sinto que vou morrer se não te disser.

Fiquei a observá-la, pensando milhares de besteiras e possibilidades, sem entender nada. Falei, serenamente:

– Não me importo com nada, amor, nada mesmo, pode falar o que quiser, sem medo. Eu te amo.

Ela se virou pra mim, obstinada:

– Eu quero te sentir por completo.

– Como assim?…

– Eu… err… eu quero sentir o seu cocô.

Minha cabeça girou na mesma hora. Um misto de nojo completo, dúvida e falta de esperança no gênero humano. Não conseguia me mexer. Estava com os olhos arregalados, sem saber o que responder diante daquela afirmação tão… Tão bizarra.

Olhou-me, triste:

– Eu sabia que você reagiria assim, ela disse.

– Sentir?, perguntei, recobrando os sentidos.

– É… Eu quero que você defeque em mim.

Bizarrias. Eu conhecia a coprofilia por alto. Já tinha visto na internet, amigos mandando aqueles e-mails sacanas. Sempre achei um nojo. Mas Renata olhava pra mim como criança, fazendo o pedido insólito, “eu quero que você defeque em mim”. O meu coração estava mais do que acelerado. Pela primeira vez, senti a surpresa da convivência a dois, aquele momento em que você descobre que a pessoa que você ama é sim uma outra pessoa. O maldito conflito de egos.

– Eu não sei se vou conseguir fazer isso. Você representa tudo o que eu amo nesse mundo. E isso não é uma privada.

– Tudo bem…

Beijei aquela boca que tanto me proporcionava o que há de mais admirável no amor, mas pensei que poderia estar beijando as fezes de alguém anterior a mim, alguém que já teve a audácia que eu não tinha. Senti o maior nojo que alguém pode sentir; e quase vomitei na boca de Renata. O pior é que talvez ela gostasse.

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II



A nossa relação não estava nem um pouco boa. Quando fazíamos amor, sentia que ela não estava lá por completo. Sozinho e completamente entregue a uma relação unipolar, sentia-me fazendo uma espécie de trabalho. Nosso sexo era pura burocracia.

Certa vez, estávamos abraçados na cama. Eu sentia os seus mamilos, aqueles seios tão bem feitos, tocando o meu peito. A respiração dela, o hálito. Refleti durante muito tempo e cheguei à conclusão de que eu não deixaria de atender aquele pedido, apesar das minhas convicções. O amor, por mais idiota que possa parecer, vence tudo.

– Amor, eu tomei uma decisão, sussurrei.

Ela abriu os olhos, estávamos tão perto que a visão era quase baça.

– Eu vou defecar em você.

Radiante, aqueles olhos cinzentos saltando de prazer:

– Como assim? É sério?

– Sim.

E é felicidade, com certeza, o que senti ao ver o sorriso de Renata.

– Mas… Você vai fazer isso agora?

– Você quer agora?

– Sim!, ela sorriu.

Talvez o sentimento forte explique o ridículo a que me submeti: pus-me de cócoras sobre o ventre dela. Percebi que ela se masturbava. Esforcei-me, fiz força, mas só consegui uma flatulência. E uma crise de riso ao ouvir seu gemido depois do meu pum. Vergonha é isso.

As primeiras tentativas foram totais fracassos. Além d’eu não conseguir defecar naquela situação, quando eu conseguia, não tinha ânimo, ou estômago, para levar aquilo adiante. Sim, dessas vezes eu brochei. Foi duro me acostumar com aquele fetiche, mas eu achava não poder fazer nada. Amava Renata mais do que a mim mesmo, como queria Cristo.  Com o tempo fui vencendo o nojo; como ela dizia, aquela merda toda era eu. Esse é um dos contatos mais íntimos que existem. Por fim, me entreguei, e ao contrário do que eu apregoava para mim mesmo, gozei. E foram gozos muito melhores. Eram gozos de libertação. Deixei Renata defecar em mim também. Aquilo era o que poderia se chamar de cumplicidade máxima. Éramos dois cagões que se completavam. Mas eu estava errado.

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III


Não, isso não posso fazer, eu disse.

– Tudo bem, respondeu, com aquela voz resoluta e tristonha, que me derrubava quase sempre.

Já tínhamos feito de tudo. Defecamos-nos, urinamos, vomitamos, fizemos sangrias nos braços. Éramos dois pactários de perversões sexuais que só eram compatíveis a uma mente sórdida como a de Sade. E a nossa, confesso. Mas o último pedido neguei. Era demais para mim.

– Você sempre fala em cumplicidade máxima, ela disse, acho que só teremos isso se você fizer o que eu estou pedindo.

Estava absolutamente consternado com o cinismo daquela mulher. Aquilo era demais. Contrariava tudo o que eu ainda tinha considerado como escrúpulos. Além de sórdido, era desumano.

– Então vá embora daqui!, ela disse.

E eu não sei por que obedeci. A casa era minha. Fiquei alguns dias sozinho num quarto de hotel, remoendo minha vida, as conspirações que o destino fez para juntar a nós dois. Eu telefonava, ela não atendia. Imagine que eu rondava minha própria casa, como se fosse um forasteiro, um estranho. O pior era que eu não conseguia beber, não conseguia fumar, não conseguia ser eu. Eu só conseguia aquela coisa chamada Renata. Acabei voltando pra casa como um cãozinho fracote, implorando perdão. Uma noite de sexo cheio de saudade. No dia seguinte saímos, para realizar aquele maldito desejo.

***

Passeamos de carro pela cidade, compramos doces, agrados, coisas gostosas. E como ela estava radiante. Senti um impulso de tomá-la ali mesmo, no meio da rua, no meio do trânsito. Paramos numa praça do centro. Olhou-me com ternura, beijou meu rosto e desceu do carro. Fiquei observando. O movimento do seu corpo, o jeito como flutuava entre o resto das pessoas. Por pior que ela fosse, Renata era um anjo no meio do mundo. Logo ela voltou, trazendo o molequinho pelo braço.

– Como é teu nome?, perguntei.

– Heitor.

Bonito nome o do menino. Ele entrou no carro, Renata ao seu lado, no banco de trás. Ele comia a pipoca que ela comprou pra ele lá fora. Era isso que eu queria evitar quando não quis atender ao pedido dela: o ciúme, essa desgraça que se instala na nossa cabeça. Não concebia ela tocando outra pessoa, mesmo que essa pessoa fosse uma criança, ou adolescente como esse Heitor, vá lá.

Chegamos em casa. Senti a raiva subir por minha espinha ao ver o beijo ávido que Renata estava dando na boca dele. Ela olhava para mim com cumplicidade. Eu teria de agüentar aquilo tudo, pois pelo menos depois do gozo daquele moleque completaríamos nosso intento. Eu teria a maldita faca. E nós, Renata e eu, nos banharíamos com uma inocência recém retirada. O sangue que vinha de um coração totalmente puro. A maior de todas as afirmações do nosso amor para o resto do mundo. Um momento só nosso.





Tentativa

10 12 2009

Ai meu Deus, disse, jovial e simplesmente disse, enquanto eu sentia uma coisa estranha, mole e pegajosa saindo da minha bunda. Não era cocô, como pensei de início, levantei da cama e, completamente constrangida, ia pedir desculpas pro pobre moço, mas só dei um grito horrendo ao observar que a pica dele, a virilha, o colo, as coxas, tudo estava sujo de sangue. A coisa mole e borrachuda quando sentei na cama. Ardeu.

Ele ficou no balde d’água lavando as partes, eu só conseguia chorar.

Sua puta nojenta, ele disse, eu ainda chorava, deitada de ladinho, o vento batendo, eu sentindo que aquela coisa era o meu cu que tinha pulado pra fora. O vento que entrava pela janela me fazia ter uma sensação fria e gostosa.

Fiquei pensando em quantas vezes dei a bunda, desde que era pequenininha, e agora eu tava pagando um preço ridículo por isso.

Ouvi a porta bater, o viadinho sair sem me pagar um centavo, mas quem disse que lembrei disso na hora?

Aos poucos fui levantando a coxa, arqueando as pernas, tomando coragem pra ver o brilho das minhas tripas no espelhinho em cima da pia daquele motel de quinta, sem banheiro, só uma cama, um balde com água, um ralo no cantinho, uma pia com torneira, um espelhinho laranja na parede. 

Pelo espelhinho, a boca feia, beiçuda, brilhante, gelatinosa.

A tripinha sujando de merda e sangue toda roupa de cama suada.

Manquei até a janela que dava pruma parede branca, o muro alto que separava o motel do resto da rua. Uma noite de merda, cheia de estrela, com vento frio e tudo. Eu sem fechar as pernas, pensando que já devia estar completamente podre por dentro. De novo a vontade de chorar, feito uma idiota.

Levantei uma e outra perna, nem pude sentar direito no parapeito. Era uma queda estreita, mas alta. Minha bunda imprestável sujando tudo. Caí.

Me ralei na parede, toda esfolada, as pernas doendo de tudo, o ossinho pulando pra fora do calcanhar.

Chorava de doer a barriga, sem respirar direito, toda quebrada, rapidinho vieram me ver, gritando socorro, chamando por médico.

Eu, que queria morrer de qualquer jeito.